Se eu pudesse dar um único conselho  seria: não corra. Correr é um ato de loucura. Se você começar, perceberá que: o seu corpo doerá, as suas pernas vão cansar, os seus pulmões irão sentir necessidade  por oxigénio, os seus pés serão maltratados e as unhas irão cair. Não corra.

Se você começar a correr, perderá as saídas de sábado com os amigos. Sairá de casa no frio, a sua pele arrepiará e, ainda assim, não terá vontade de voltar para a cama. Não corra.

Não seja como esses doidos que percorrem ruas, calçadas, parques, e trilhos, respirando ofegantes, com viseiras coloridas, fones nos ouvidos e relógios controladores de tempo e de distância. Correr é um vício perigoso.

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Vai falar uma linguagem estranha, o seu vocabulário será inundado de palavras como paces, treinos longos, flartec, altimetria, regenerativo, canelite e endorfina. Os seus amigos e familiares não entenderão quando você falar que “quebrou naquela prova”, e ficarão apavorados quando você disser que “deu 12 tiros no treino de ontem”.

Quando você menos perceber, o seu armário terá mais shorts, calções e t-shirts do que roupas de “pessoas comuns”. Corredores são pessoas estranhas, que comem sem medo, bebem sem culpa, que correm dezenas de provas durante um ano, não ganham nenhuma, mas festejam cada uma delas como uma conquista olímpica. Corredores são loucos, confie em mim.

Correr vai-te trazer a sensação de você pode ir sempre mais além. Correr fará  conhecer pessoas loucas que começaram a correr e tornaram-se viciados, daqueles que falam com desconhecidos no meio de uma corrida. E, veja só: eles ajudam estranhos, incentivam pessoas que nunca virão antes a continuar a correr.

Estes viciados não deixam os outros largarem do vício. Corredores colecionam medalhas, possuem um corpo magro, uma mente saudável, fazem amigos de infância a cada prova que disputam. Corredores são pessoas felizes, e isso (aaah…), isso é um grande perigo para a sociedade. Então, acredite em mim: não corra. Não arrisque se tornar um viciado incurável ou uma pessoa que possui a felicidade genuína. Não arrisque se tornar alguém melhor a cada dia.