Se quer dar o seu melhor, não tem jeito: vai sentir dor ao correr. É a capacidade de seguir apesar do incómodo que per­mite que continue firme até o fim. E mesmo que corra para manter a forma ou ter mais saúde, deverá forçar os seus limites para evoluir, já que assim o corpo vai ficando mais eficiente.

Relembre os seus sacrifícios

Quando o ultra maratonista norte-americano Dylan Bowman realmen­te começa a sentir dor na metade da corrida, ele muda o foco para, nas suas palavras, “comparar o que está má com a minha motivação”. Para isso, ele pensa em todos os sacrifícios que fez para chegar até ali. Como recusar mais uma fatia de pizza e uma cerveja, renunciar a ficar com a sua noiva para poder treinar, viajar para competir. “Eu acabei ganhando provas que pensei que não fosse vencer a pensar em todas as coisas das quais abri mão”, conta Dylan. “É uma coisa louca eu conseguir aguentar muito mais quando faço isso.”

É sempre bom estar preparado. Portanto, reveja  o plano antes da prova para identificar exatamen­te em quais ocasiões saiu da sua cama quentinha. Ou então perdeu um happy hour após o trabalho para encaixar mais um treino na rotina. Se você relembrar esses momentos quando começar a sentir dor, talvez consiga não pensar tanto no descon­forto e aumentar a sua motivação para, assim, tirar o máximo do treino.

Agradeça

O ultramaratonista de montanha Karl Meltzer, que ano passado foi o mais rápido na Appalachian Trail (em que correu, em média, 75 km de trilhas de nível avançado em 45 dias consecu­tivos), afirma que o seu segredo para lidar com a dor é “pensar em como sou privilegiado por estar aqui, fazendo isso”. Durante toda a trilha, Karl delibe­rada e repetidamente agradeceu à sua equipa de apoio. “Demonstrar gratidão quase sempre melhora tudo”, diz.

Segundo Emiliana Simon-Thomas, diretora científica no Centro de Ciên­cias Greater Good, na Universidade de Berkeley, Califórnia (EUA), expressar gratidão é eficaz porque “ajuda as pes­soas a mudarem a forma de pensar, passando do foco , que talvez traga ansiedade, para algo mais otimista e resignado”. E, segundo ela, o otimismo “pode ajudar a conquistar um resultado positivo, o que, por si só, já é muito benéfico”. Esse atitude também promove mudanças positivas na forma como encaramos a dor e o esforço.

Quando ficar difícil seguir, pense nas pessoas ou circuns­tâncias que contribuíram para  poder correr, por exemplo: a sua esposa/ o seu marido porque ela/ele cuida das crianças enquanto corre; seu corpo, porque ele é saudável; seu chefe, porque o seu salário paga o equipamento de corrida e a inscrição em provas. Melhor ainda, quando você passar por uma estação de apoio no meio da prova, sorria e agradeça aos voluntários: a gratidão tem ainda mais poder quando compartilhada verbal­mente com outras pessoas.

Dor ao correr: medite

Há cada vez mais evidências de que me­ditar por apenas oito semanas pode in­duzir mudanças estruturais na parte do cérebro relacionada à autorregulação. Essas mudanças ajudam a controlar a nossa resposta a estímulos altamente relacionados a emoções, como a dor. Brandon Rennels, professor de medita­ção mindfulness (atenção plena) em São Francisco (EUA), afirma que a prática ajuda a diferenciar desconforto físico de resposta emocional ao desconforto. “A dor, por si só, já é bastante ruim, mas a ansiedade ligada a ela pode, às vezes, ser ainda pior.”

Pesquisadores da Universidade de Wisconsin (EUA) monitoraram o cérebro de especialistas e novatos em meditação ao mesmo tempo, em que provocaram uma sensação dolorosa na perna dos participantes. Inicialmente, ambos os grupos tiveram um pico de atividade na ínsula anterior, porção do cérebro ligada à perceção da dor. Em seguida, a atividade cerebral continuou alta na ínsula dos novatos e cessou rapidamente nos especialistas em me­ditação. Foi como se os especialistas tivessem escolhido não dar atenção aos padrões de ansiedade que geral­mente pioram a percepção da dor ao correr.

Quer aderir à meditação? Comece com 1 minuto por dia e, gradativamen­te, aumente o tempo, com a meta de alcançar 15 a 20 minutos por dia ou mais. Sente-se de modo confortável, num ambiente tranquilo, ajuste um despertador para o tempo de medita­ção desejado e se concentre na respi­ração. Se vierem pensamentos à sua mente, reconheça-os e redirecione a sua concentração para a respiração.